divagando.

- Quero começar a delinear algum sentido nisso.
- Tem coisas que não precisam ser tão detalhadas.
- Eu não disse que iria detalhar.
- Mas teve vontade.

- Tudo bem. Eu poderia dizer muitas coisas a seu respeito, muitas destas coisas você negaria e, enfim, é difícil mesmo poder se aproximar da verdade do outro. A verdade é tão única, que você pode distorcer o que eu digo a ponto de fazer com que ela se torne agradável e possível dentro do seu próprio viés. A fala ganha tom de acusação e faz com que a verdade pareça difícil de ser capturada. Olha, por mais que você distorça, eu vou ter que dizer. Ao menos um dia você vai poder me enxergar e dizer que eu não sou destas pessoas conformadas, destas que só suspiram quando abrem a boca. Não traduza o que eu digo, não vá ouvir o que eu não estou dizendo, não se esqueça de que eu também tenho o meu viés e sim, o meu viés tem muitos detalhes. Minha intuição diz que você está preparado. Consegue ficar sem me interromper? É que você parece estar sempre tão disposto a entender, a dialogar, como se as coisas pra você fossem muito fáceis (eu sei que não são). Eu posso crer que as coisas entre nós (e entre você e todo universo imaginável) fluem de uma maneira estranhamente boa. Sinto como tendo vertigens, sinto como se estivesse entrando num estado diferente, de maior sensibilidade. Um clima de formalidade com aquela leve tensão das primeiras vezes se mistura com a nossa fluidez e então eu posso dizer que cheguei mais perto daquilo que eu desejaria alcançar. Não gosto que me digam coisas como “o que eu espero é que você seja…”, por isso eu me atrevo a dizer que você é exatamente o que eu espero: você, puramente você. Não me interessa que seja previsível ou imprevisível. Talvez a maneira como você me vê traga um pouco mais de verdade (se ainda for possível expandir o que isto seja) nesta relação (partindo do pressuposto de que isto seja uma relação). Estive conversando com alguém que me disse que gostar de uma pessoa implica também em perceber que esta pessoa também nos quer bem. E se for assim mesmo, não preciso nem dizer o que pensei agora. Às vezes desisto de tentar entender o porquê destas coisas acontecerem comigo. Meu escrever é romântico, meu sentir é intenso, mas meu pensar é pacífico. Às vezes a mente fica longe demais de onde eu estou de fato. De vez em quando eu preferiria estar totalmente sintonizada num só canal, mas é como se eu pedisse pra que você vivesse um momento de cada vez sendo que a gente vive num turbilhão. Estas milhares faces que se consagram em mim interferem nos meus ares sérios. E se digo isto tudo é porque tem a ver com você. O meu jeito pode fazer com que você duvide, interponha frases que me censurem, coisas que eu não disse e aí as coisas tendem a desaguar naquele mesmo lugar de sempre. O das coisas mal entendidas. Não sei se fez algum sentido pra você, mas foi bom ter dito isso…

perspectivas.

Onde você está? Eu não consigo achar. Não entendo a linha suave que te separa do chão, ao menos ela encobre grande parte do que eu precisaria ver. Eu sinto você sempre tão distante da realidade que tenho medo de tentar alcançar. Se você descer do ar, vai parecer que está no mesmo nível do meu pensamento. Não que ele esteja abaixo das expectativas, é que você acaba desfazendo qualquer suposição, é que o seu jeito maleável me causa muita estranheza embora também me provoque alguma afeição. Dá vontade de me aproximar, mas já nem sei como começar. Queria estar mentindo, subvertendo a sua leveza em um grande problema, este que às vezes parece destroçar meus ombros e sutilmente me faz desistir de novos caminhos que me guiam até você.

Sabe o que é? Eu não posso te encontrar, pois é como se também eu estivesse me encontrando. E aí ressurge aquela parte vaga, aquele vazio com nome e endereço, prestes a bater na porta da minha casa e depois partir como se nunca tivesse me conhecido. É muito claro pra mim que isso pode acontecer desde que eu me deixe levar por todas essas coisas que me paralisam, que me impressionam e que, por outro lado, me fazem perceber o quão distante estamos.

Você faz parte de um cenário intangível, um oásis qualquer colorindo minha atmosfera com tons vastos e vibrantes. É tudo sonhado e idealizado? Algumas coisas, mas por enquanto ainda não me perdi de vista. Sei diferenciar uma ilusão de um objetivo, sei também que posso estar falando confuso e te deixando confuso, mas sinto, sinto, sinto tanto como quase ninguém sentiu. É muito difícil de expressar, além de ser quase impossível de deixar isso calado.

É como se você tivesse voado e eu ficado aqui no chão, esperando outra sensação capaz de me dar algo parecido, um meio pra que eu possa chegar mais perto de onde eu desconheço. Não preciso fazer você descer nem preciso me elevar demais. Na verdade estamos no mesmo plano,  basta enxergar com mais atenção. Tudo o que eu quero é poder conectar nossos pensamentos e pra isso só preciso ser eu mesma, me mostrar. (E nós somos sempre tão parecidos…)

antes de cair.

O problema é que eu sei e você também, de uma coisa que perpassa as ruas da cidade, cheias de novos símbolos e cheiros comuns. Uma coisa que paira quase transparecendo, mas que ainda é difícil de definir com clareza. Existe um segredo velado do qual os outros apenas compartilham o silêncio. Uma ponte que foi construída entre dois corpos e que parece estar ali apenas por capricho, de um ou de outro, mas que precisa há tanto ser desativada.

Mas a curiosidade é a mão que escalpela todos os sentidos com uma sensibilidade perfeitamente possível, mesmo os sentidos mais fiéis. É que quando somos nós os seres perseguidos, vive-se como se fosse parte de uma realidade perversa, onde o olhar do outro acaba sendo até pior do que o nosso próprio olhar, moldado a ser cada vez mais severo consigo e apático com o mundo. A nossa troca de olhares acaba sempre num corte profundo. Deixou marcas que sofrem recortes de consciência, seleções inversas, reações adversas, tudo que é indesejado e que me faz fugir do seu olho, este que acompanha o meu jeito de andar como se torcesse para eu cair. Estranho. Parece às vezes manso, mas é só a iluminação, efeito do ambiente. Parece às vezes fugaz, descompassado, mas é certeiro como se tateasse a distância com uma régua milimétrica. Sutileza vazia. A cada corte um novo aprofundamento, parte de um grande abismo cheio de terra em volta. Enterra-se o que já foi dito mil vezes enterrado, ou cava-se um pouco mais? A perda agora configura apenas mais tempo perdido. O mais valioso, no fim das contas, já se perdeu no meio da poeira.

Opto pelos caminhos mais próximos e conhecidos, cujas rotas tem me causado um leve esquecimento. Quem sabe as noites, as gentes, o cansaço, também possam me fazer este favor. Não consigo achar motivo de tanto alarde mudo. Tento me convencer do que não quero e vejo que é melhor não pensar em mais nada mesmo, tentar dormir e viver com um pouco mais de alma. O simples entender já constrói uma muralha.

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