antes de cair.

O problema é que eu sei e você também, de uma coisa que perpassa as ruas da cidade, cheias de novos símbolos e cheiros comuns. Uma coisa que paira quase transparecendo, mas que ainda é difícil de definir com clareza. Existe um segredo velado do qual os outros apenas compartilham o silêncio. Uma ponte que foi construída entre dois corpos e que parece estar ali apenas por capricho, de um ou de outro, mas que precisa há tanto ser desativada.

Mas a curiosidade é a mão que escalpela todos os sentidos com uma sensibilidade perfeitamente possível, mesmo os sentidos mais fiéis. É que quando somos nós os seres perseguidos, vive-se como se fosse parte de uma realidade perversa, onde o olhar do outro acaba sendo até pior do que o nosso próprio olhar, moldado a ser cada vez mais severo consigo e apático com o mundo. A nossa troca de olhares acaba sempre num corte profundo. Deixou marcas que sofrem recortes de consciência, seleções inversas, reações adversas, tudo que é indesejado e que me faz fugir do seu olho, este que acompanha o meu jeito de andar como se torcesse para eu cair. Estranho. Parece às vezes manso, mas é só a iluminação, efeito do ambiente. Parece às vezes fugaz, descompassado, mas é certeiro como se tateasse a distância com uma régua milimétrica. Sutileza vazia. A cada corte um novo aprofundamento, parte de um grande abismo cheio de terra em volta. Enterra-se o que já foi dito mil vezes enterrado, ou cava-se um pouco mais? A perda agora configura apenas mais tempo perdido. O mais valioso, no fim das contas, já se perdeu no meio da poeira.

Opto pelos caminhos mais próximos e conhecidos, cujas rotas tem me causado um leve esquecimento. Quem sabe as noites, as gentes, o cansaço, também possam me fazer este favor. Não consigo achar motivo de tanto alarde mudo. Tento me convencer do que não quero e vejo que é melhor não pensar em mais nada mesmo, tentar dormir e viver com um pouco mais de alma. O simples entender já constrói uma muralha.

in defesa ou em defesa.

Eu me adapto ao teu jeito. Eu me encaixo no abraço. Ouço a chuva que me faz sentir de novo a vontade de estar viva, suportando os defeitos e as manias que te fazem ser suficientemente bom pra mim.

Afasto meu corpo da tua zona íntima, pra poder enxergar teu rosto em contraluz. Reinvento mentalmente a rota das carícias, tentando guardar as linhas que te desenham e o modo como elas te deixam expressar toda a tua vividez, como se eu pudesse guardar o desenho na cabeça. Teu adormecer é tão bonito que eu não quero perder nenhum detalhe. Em pensar que tu é tão solto e despreocupado, que a tua liberdade não me dá nenhuma chance de ser livre também. Isso não seria nenhuma dificuldade, mas os poréns são sempre tão palpáveis que aquilo que poderia ser simples acaba parecendo impossível.

(Penso em como tu me acordaria caso eu estivesse dormindo. Talvez com beijos no ombro, mãos quentes sobre a cintura, uma risadinha ou um sussurro. Mas isso é coisa pra outra hora.)

É… Tu não existe mesmo. Pra que te despertar?

circundando o vazio.

Eu me pergunto de que são feitas as escolhas. Minha distração é tentar correr de olhos fechados, agarrar grãos de areia, mesmo sabendo conscientemente daquilo que não convém. Por mais que essa consciência se redobre, novamente faço o mesmo atalho, vou pelo sim quase indeciso, o simeuseiquenãopossomasvoutentardequalquerjeito, mesmo depois de relutar um pouco em relação às minhas próprias limitações. Penso no se. Não quero evitar. E eu queria poder tanto, nem que depois eu pudesse dizer que não foi daquela vez. Que estava distante demais do meu alcance. Que eu fiz o que pude e eu realmente não posso mais do que isso. Mesmo que fosse mentira, que eu sequer tentasse e. Enfim, pouparia tanto de mim e de outros, mas aí eu pergunto: pra que?

Essa minha fraqueza pode ser facilmente identificada, desde que se preste um pouco de atenção na sutileza. O que está posto aqui, nessa insistência? O que está em mim, não era só meu, era nosso. Era construção e se desfez, que nem o abraço do vento. Uma construção de linhas invisíveis, que ao menor sinal de catástrofe parecia se importar pouco. Tantos alarmes e nenhum correspondido com a costumeira preocupação, deve ser porque eram falsos. Nossa propriedade parecia tão forte quando comparada às árvores altas, a nós mesmos, imagem e semelhança do futuro que parecia não temer vendavais. Formávamos uma casa bonita, na qual se acumulavam histórias de muitos anos, cada qual ia nos remetendo a algum lugar distante. Tenho impressão de estar num labirinto infinito, onde as dúvidas se chocam o tempo todo contra as compreensões já bem delineadas, contrastes de claridade com escuridão total e um certo Zeitgeist levando pra onde dá, na hora que for, independente do que foi traçado até o momento. Se tiver que retroceder, a estratégia é tatear o escuro? Deixa ser como é ou como aparenta ser?

Banalidades, saudosismos, idealismos. Que tanto e nada tem nisto. Que tanto tempo se perde tentando escapar do inevitável. Se enganar faz parte do alívio dos sintomas? Pensar sobre o pensar já faz parte do nosso jeito de ser, sim, mas eu não gostaria de ter que mostrar a maneira como penso tanto. Doeria demais ouvir minha própria voz trazendo as coisas internas, se já dói ver meu rosto assim cansado e impotente. Viver por si só já é tão dolorido às vezes, que eu não quero ter que pulsar, sangrar, pra poder sentir o que não se vê.

Hoje eu percebo tanto estilhaço no chão. Dependendo da incidência da luz, fica tudo invisível. Isso me leva a crer que tudo está sempre posto, só muda de intensidade.

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