O problema é que eu sei e você também, de uma coisa que perpassa as ruas da cidade, cheias de novos símbolos e cheiros comuns. Uma coisa que paira quase transparecendo, mas que ainda é difícil de definir com clareza. Existe um segredo velado do qual os outros apenas compartilham o silêncio. Uma ponte que foi construída entre dois corpos e que parece estar ali apenas por capricho, de um ou de outro, mas que precisa há tanto ser desativada.
Mas a curiosidade é a mão que escalpela todos os sentidos com uma sensibilidade perfeitamente possível, mesmo os sentidos mais fiéis. É que quando somos nós os seres perseguidos, vive-se como se fosse parte de uma realidade perversa, onde o olhar do outro acaba sendo até pior do que o nosso próprio olhar, moldado a ser cada vez mais severo consigo e apático com o mundo. A nossa troca de olhares acaba sempre num corte profundo. Deixou marcas que sofrem recortes de consciência, seleções inversas, reações adversas, tudo que é indesejado e que me faz fugir do seu olho, este que acompanha o meu jeito de andar como se torcesse para eu cair. Estranho. Parece às vezes manso, mas é só a iluminação, efeito do ambiente. Parece às vezes fugaz, descompassado, mas é certeiro como se tateasse a distância com uma régua milimétrica. Sutileza vazia. A cada corte um novo aprofundamento, parte de um grande abismo cheio de terra em volta. Enterra-se o que já foi dito mil vezes enterrado, ou cava-se um pouco mais? A perda agora configura apenas mais tempo perdido. O mais valioso, no fim das contas, já se perdeu no meio da poeira.
Opto pelos caminhos mais próximos e conhecidos, cujas rotas tem me causado um leve esquecimento. Quem sabe as noites, as gentes, o cansaço, também possam me fazer este favor. Não consigo achar motivo de tanto alarde mudo. Tento me convencer do que não quero e vejo que é melhor não pensar em mais nada mesmo, tentar dormir e viver com um pouco mais de alma. O simples entender já constrói uma muralha.
